Jequié/BA, 23 de Julho de 2014

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SANTO AMARO DA PURIFICAÇÃO: HISTÓRIA, FESTAS E TERRA DA CULTURA

Santo Amaro é uma Cidade histórica, que teve participação ativa do início ao fim do processo da emancipação nacional.
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por Oscar Vitorino M. Mendes

Peço vênia aos meus queridos conterrâneos Jequieenses para deixar de lado um pouco assuntos referentes à Saúde Pública para os quais me propus a escrever, para matar um pouco as saudades da minha Santo Amaro, (minha terra mater) do seu povo e da sua história, principalmente no tocante aos fatos que acontecem anualmente no período de final de janeiro e início de fevereiro. Aspectos que talvez sejam aproveitados por alguns, assim espero.

Por eu falar em Santo Amaro, de suas Festas Populares, do Maculelê, da Capoeira, do Samba de Roda, dos Trilhos Urbanos, da Lavagem da Purificação, das Festas de 02 de Fevereiro, da Procissão de Nossa Senhora da Purificação e muito mais, por que então não contar um pouco da sua história, para conhecimento de tantos?

Santo Amaro é uma Cidade histórica, que teve participação ativa do início ao fim do processo da emancipação nacional. Ela registra a passagem de relevantes vultos da nossa História Nacional, como D. Pedro II e Ruy Barbosa. Porém, mais que abrigar visitantes ilustres, a cidade os gerou para o País. Tornou-se cidade em 1837 juntamente com a cidade irmã de Cachoeira-BA. Com um porto dentro do continente, Santo Amaro foi um importante entreposto comercial da região e o principal porto açucareiro do Recôncavo. Uma cidade que, apesar das mudanças de costumes decorrentes do progresso, é, ainda hoje, uma cidade essencialmente religiosa.

Palavras ditas e considerações feitas a respeito da belíssima história dessa cidade do recôncavo baiano, vou agora sobrestar, para discorrer um pouco sobre o cerne da questão: as Festas de Santo Amaro da Purificação (BA).

Ah! E como é bom viver intensamente Santo Amaro no final de janeiro e início de fevereiro. É muito gostoso, afinal é quando acontecem anualmente as Festas de Nossa Senhora da Purificação - Padroeira da Cidade - tendo início no dia 24 de janeiro com o novenário, estendendo-se até o sábado que antecede a Lavagem da Purificação (último domingo do mesmo mês) e, tendo como alvo principal das festividades: a majestosa Procissão de Nossa Senhora da Purificação - dia 02 de fevereiro (não importa o dia da semana), encerrando assim as Festas de Santo Amaro. É um momento agradabilíssimo, de encontros e reencontros, de se fazer visitas, de se construir novas amizades, de namoricos e de pura emoção. São dias contagiantes. São crianças, adolescentes, adultos, idosos, turistas, peregrinando pelas ruas, recheando diariamente a Praça principal da cidade – Praça da Purificação, num verdadeiro encontro de gerações, de bate papos, de trocas de ideias, de abraços afetuosos, de parques de diversões, de orações e de reflexões. Assim é Santo Amaro, implantada no recôncavo baiano, em pleno massapê, distante da Capital do Estado (Salvador) 73 belos Km, sendo 60 em pista dupla, com o privilégio de desfrutar em suas margens, velhos canaviais, símbolo de uma cultura milenar e das nossas tradições.

Mas, afinal, como descrever um acontecimento tão marcante, tão agradável? Na verdade, é uma Festa muito peculiar, diferente de tantas que tenho presenciado, dentro da mesma filosofia. Senão vejamos:

Primeiramente, quero me referir as Novenas da Purificação, rezadas em latim, detalhe bastante incomum para nós baianos e brasileiros, e que acontecem na igreja da padroeira Nossa Senhora da Purificação, Imponente e Majestosa, que se constitui ainda hoje, num ponto de referência da maior festa religiosa cívico-popular do município e uma das maiores do Estado, a tradicional e famosa Festa da Purificação.

Num segundo momento - a Lavagem da Purificação, que acontece sempre no último domingo de janeiro, e atrai milhares de turistas para a cidade e grandes atrações da música baiana e brasileira, com o desfile das baianas, elegantemente trajadas de branco, acompanhadas da tradicional Charanga, tendo como ponto de partida até o ano passado (2012) a porta da casa de D. Canô, falecida em dezembro PP aos 105 anos de idade (A Matriarca dos Veloso como era carinhosamente tratada) – saudades infinitas. Ao longo de todo o percurso, a Charanga procura dar ênfase, principalmente às músicas carnavalescas mais antigas, intercalando com músicas atuais. Em boa parte do circuito, são tocadas músicas que dizem respeito à tradição da festa: pé dentro, pé fora, quem tiver pé pequeno que vá embora, e a famosa lambretinha: corre......corre lambretinha, pela estrada além...; corre, corre lambretinha que vou ver meu bem, seguindo em direção a Igreja da Purificação, onde inicialmente ocorre a lavagem do adro da igreja com água perfumada, para, em seguida, ouvirmos as palavras do Prefeito da cidade, fazendo a abertura oficial da festa profana e, então, a partir daí, tem início o cortejo da Lavagem da Purificação, percorrendo as ruas da cidade, debaixo de um calor abrasador que assola a cidade nesse dia. Tudo isso, sob os olhares de tantos quantos ali se instalam naquele local, na sua maioria turista, portando suas potentes câmeras, para apreciar cada detalhe de tudo o que ocorre, e ter como lembrança um momento tão especial.

Para encerrar as Festas de Nossa Senhora da Purificação, não poderia deter-me apenas a falar da parte profana, afinal, o seu ponto alto é a parte religiosa, que culmina com a Procissão de 02 de fevereiro, dedicada a nossa padroeira. No seu cortejo, a presença de várias imagens da região à frente, como se fossem verdadeiros batedores, na segurança e, ao mesmo tempo em sinal de reverência à Padroeira da cidade - Nossa Senhora da Purificação, ela, com toda a sua imponência, carregando o seu filho nos braços, abençoando a todas aquelas pessoas que a acompanham, e por que não dizer a toda Santo Amaro e região.

E os turistas! Ah! Como admiram, tudo é novidade, afinal é a terra, hoje conhecida nacionalmente, quiçá internacionalmente, de Caetano, Betânia e D. Canô (in memoriam). Oriundos de vários rincões dessa grande Bahia e de diversos cantos e recantos desse país, não perdendo os melhores flashes. Até o ano passado, na mesma época, muitos tiveram a oportunidade de conhecer de perto a Matriarca dos Veloso – D. Canô, como era carinhosamente tratada por todos, mãe dos famosos artistas Caetano e Maria Betânia, e que sempre assistia as novenas de Nossa Senhora sentadinha numa cadeira de rodas, mas sem nunca deixar de estar elegantemente trajada com os seus conjuntos de cor branca, acompanhada de seus familiares, e muito cordialmente, atendendo a todos, pacientemente, para algumas fotos na majestosa Igreja da Purificação. Essa é a festa de Santo Amaro, este ano já sem a presença física da queridíssima e estimada D. Canô, que dela compartilhou e abrilhantou por tantos anos.

Mas tudo isso acontece entremeado à parte profana da festa, que apresenta ano após ano, uma programação bastante enriquecida pela presença de artistas famosos e também pratas da casa, cantando músicas para todos os gostos, numa mistura de ritmos e sonoridades para agradar a todo tipo de público, do menos exigente ao mais contestável.

Ah! E como as pessoas se orgulham e se engalanam para participar das festividades. Indiscutivelmente, em períodos remotos, que não é privilégio apenas de Santo Amaro, numa ocasião como esta, as pessoas se trajavam elegantemente. Mas hoje, as coisas se modificaram, as pessoas mudaram, ficaram mais livres, se libertaram das grandes formalidades, enfim, o comportamento humano também mudou. Coisas da modernidade ou pós-modernidade.

Em complemento às festividades, as famílias, dentro de suas possibilidades, preparam as suas casas nos padrões santamarense, para receberem parentes, amigos dos parentes, namorados (as) e, quem sabe, um convidado de última hora, finalmente; tudo pode acontecer em Santo Amaro; aí, haja colchões de todo tipo: inflável (coisa moderna), não inflável, espalhados por toda a casa; fartura de comida, de preferência uma boa feijoada típica da região, maniçoba ou uma galinha a molho pardo, não esquecendo, claro, da famosa cervejinha (loiríssima); esta então não pode faltar. E para sobremesa, um bom doce de goiaba, de leite ou quaisquer outros. Mas isso tudo é festa, e é próprio do santamarense gostar de festa e de preocupar-se em acolher bem os visitantes, não importa que sejam conhecidos ou não.

Meio a tudo isso, Santo Amaro é uma terra de mulatas bonitas, com fenótipos sedutores, capazes de chamar a atenção logo à primeira vista, principalmente daqueles mais curiosos e admiradores de uma das coisas mais belas: a mulher! Não importa a sua religiosidade, a sua crença, importa sim, que tenha samba no pé. Assim é Santo Amaro durante o seu período de festas, cheio de alternativas culturais e folclóricas: o samba no pé, o samba de roda, o prato de D. Edith do prato, figura jamais esquecida nas rodas de samba; o maculelê, da professora e historiadora Zilda Paim, de Popó (figura lendária) a capoeira, dos Mestres Besouro e Vivi (figuras lendárias), das comidas típicas: xinxim de bofe, xinxim de galinha, maniçoba, sarapatel, sururu, a feijoada, caldo de feijão e por aí vai.

Mas isso tudo é Santo Amaro, uma cidade criativa, irreverente, que a cada ano consegue abrilhantar mais a festa, trazendo para as comemorações, a cada ano, artistas famosos: Caetano Veloso, Maria Gado, Maria Betânia, Gilberto Gil, Gal Costa, Luís Melodia, Roberto Mendes, Jau, Alcione, Daniela Mercury, Chiclete com Banana, Guilherme Arantes, Moreno Veloso, Jorge Vercilo, Magary Love, Tatau, Padre João Carlos (PE) e tantos outros, além do Samba de Rodas de São Félix, e vários trios elétricos percorrendo o asfalto implantado recentemente na Avenida Ferreira Bandeira (Estrada dos Carros), deixando livre a Praça da Purificação e imediações da Prefeitura para instalação de dois palcos para apresentação desses artistas.

Santo Amaro, a cidade, hoje dita: a terra de Caetano, e Maria Betânia e de D. Claudionor Viana Teles Velloso, carinhosamente D. Canô, in memoriam – a Matriarca dos Velloso - uma figura humana maravilhosa, amiga de todos e de todas, companheira, religiosa por convicção, mãe participativa e solidária, que gostava infinitamente de viver, não importava as circunstâncias da idade. Mas para aqueles que não conhecem a história de Santo Amaro, a também terra de outros santamarenses ilustres, alguns adotados pela cidade ou que a ela adotou, mas que a ajudaram no seu desenvolvimento e reconhecimento político, intelectual e cultural, destacando-se dentre eles, as figuras de:

Amélia Rodrigues, Assis Valente, Barão de Sergy, Conselheiro Saraiva, Dona Edith do Prato, Emanoel Araújo, Gustavo Viana, João Moniz Barretto de Aragão, José Silveira, Mano Décio da Viola, Marquês de Abrantes, Miguel Calmon du Pin e Almeida, Monsenhor Gaspar Sadoc da Natividade, Nestor Oliveira, Odilon Otaviano dos Santos, Pedro Francisco Rodrigues do Lago, Plínio de Almeida, Antônio do Prado Valladares, Theodoro Sampaio, Visconde de Oliveira, Visconde de Pedra Branca, Visconde de São Lourenço, Visconde de Subaé, Wanderley Pinho, Virgildásio Senna, Adroaldo Ribeiro Costa, Heitor Dias, João Ferreira de Araújo Pinho, Manoel Faustino dos Santos Lyra, Osvaldo Valverde, Padre José Gomes Loureiro, Rogério Rego, Sérgio Cardoso, João Ladislau de Cerqueira Bião, Joviniano Barreto, Raimundo Nonato Sales Brasil, Epifânio Fernandes, Pe. Miguel Valverde, Jorge Portugal, Roberto Mendes, Osvaldo de Assis, Joãozinho do Violão, Zilda Paim, dentre outros, cada um exercendo o seu papel dentro da história da “Leal e Benemérita Cidade de Santo Amaro da Purificação”.

Não é demais? Mas é Santo Amaro: Terra da Cultura, mas também do Samba de Roda e das Festas de 02 de Fevereiro.

Agradeço aos leitores pela paciência ao me permitirem escrever sobre a também minha terra: Santo Amaro da Purificação.

- Por Oscar Vitorino Moreira Mendes - Méd. Vet. Prof. Aposentado da UESB -Santamarense/Jequieense



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Flávio (Conceição do Coité) - 02/11/2013
Um depoimento bastante preciso e peculiar, que me fez ver, a grandeza de uma terra cheia de historias e lembranças marcante;aonde eu, também me criei e me considero Santamarense de coração!!!
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